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Desenvolver um vício não acontece simplesmente porque alguém é fraco, impulsivo ou não possui força de vontade.

Na maioria das vezes, existe uma combinação de fatores que participa da construção e da manutenção de um comportamento de dependência ou compulsão.

Algumas pessoas começam a beber para relaxar.

Outras encontram nas apostas uma sensação de expectativa e possibilidade de mudança. Há quem procure as redes sociais para se distrair, a pornografia para aliviar tensão, as compras para sentir prazer ou o trabalho para evitar determinadas emoções.

No começo, aquele comportamento pode parecer apenas uma escolha.

Com o tempo, porém, ele pode se transformar em uma maneira recorrente de lidar com aquilo que a pessoa sente.

Mas por que isso acontece?

O vício pode começar com uma sensação de alívio

Uma das chaves para compreender os vícios está na relação entre comportamento e emoção.

Imagine uma pessoa que chega ao final do dia sentindo ansiedade.

Ela pega o celular e começa a navegar pelas redes sociais.

Durante alguns minutos, deixa de pensar nos problemas.

O desconforto diminui.

Esse alívio pode fazer com que o cérebro associe aquele comportamento à possibilidade de se sentir melhor.

Em outra situação, alguém pode estar frustrado e fazer uma aposta. Outra pessoa pode comprar alguma coisa depois de um dia difícil. Alguém pode recorrer à pornografia quando se sente solitário.

O comportamento pode proporcionar prazer, distração ou alívio.

E aquilo que produz uma recompensa tende a ser repetido.

O problema aparece quando essa estratégia começa a se tornar uma das principais maneiras de regular as emoções.

O cérebro participa desse processo

Os comportamentos relacionados à dependência envolvem mecanismos de aprendizagem, motivação e recompensa no cérebro.

Quando determinada experiência produz prazer, alívio ou uma sensação emocionalmente significativa, o cérebro aprende que aquele comportamento pode ser repetido.

Isso não significa que exista uma única região do cérebro responsável pelos vícios, nem que a pessoa esteja simplesmente "programada" para se tornar dependente.

A dependência é complexa e envolve a interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.

Por isso, duas pessoas podem vivenciar exatamente o mesmo comportamento e desenvolver relações completamente diferentes com ele.

Nem todo mundo que experimenta algo desenvolve um vício

Esse é um ponto importante.

Experimentar álcool não significa necessariamente desenvolver dependência.

Apostar ocasionalmente não significa automaticamente ter um transtorno relacionado a apostas.

Usar redes sociais todos os dias não significa necessariamente ter uma dependência.

Comprar algo que você deseja não significa ter compras compulsivas.

O comportamento precisa ser compreendido dentro da história e do contexto de cada pessoa.

O que importa é observar frequência, intensidade, perda de controle, sofrimento e consequências.

É quando determinado comportamento começa a ocupar um espaço desproporcional na vida que precisamos prestar atenção.

O sofrimento emocional pode fortalecer o ciclo

Ansiedade, solidão, frustração, estresse, tristeza e sensação de vazio podem aumentar a vulnerabilidade a determinados comportamentos compulsivos.

Mas isso não significa que toda pessoa que apresenta ansiedade desenvolverá um vício.

Também não significa que exista uma única causa emocional para cada dependência.

A questão é compreender que, para algumas pessoas, determinado comportamento pode funcionar como uma tentativa de administrar emoções que parecem difíceis de suportar.

A pessoa não necessariamente pensa:

"Vou desenvolver um vício."

Ela pensa:

"Só preciso me sentir melhor agora."

E é justamente essa busca pelo alívio imediato que pode contribuir para a manutenção do comportamento.

O alívio é imediato. As consequências podem vir depois.

Esse é um dos aspectos mais difíceis dos comportamentos compulsivos.

A recompensa costuma acontecer no presente.

As consequências negativas podem aparecer depois.

Uma pessoa aposta e sente expectativa.

Compra e sente prazer.

Usa o celular e se distrai.

Bebe e relaxa.

Acessa pornografia e experimenta excitação ou alívio.

Trabalha excessivamente e sente que está produzindo e evitando outras questões.

Naquele momento, o comportamento parece funcionar.

Mas depois podem surgir:

  • culpa;

  • vergonha;

  • problemas financeiros;

  • conflitos nos relacionamentos;

  • queda no desempenho profissional;

  • isolamento;

  • problemas de saúde;

  • ansiedade;

  • sensação de perda de controle.

E então aparece um paradoxo:

o comportamento que ajudava a aliviar o sofrimento começa a produzir ainda mais sofrimento.

É assim que o ciclo pode se fortalecer

Podemos representar esse processo de maneira simples:

Sofrimento emocional → comportamento → alívio ou prazer → repetição → consequências → novo sofrimento → comportamento novamente.

Com o passar do tempo, esse ciclo pode se tornar automático.

A pessoa pode começar a buscar o comportamento não porque realmente deseja aquilo naquele momento, mas porque aprendeu que aquela é uma maneira rápida de modificar o que está sentindo.

É por isso que simplesmente dizer:

"É só parar."

raramente ajuda.

E por que a pessoa continua mesmo sabendo que faz mal?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis para quem observa um vício de fora.

"Se ele sabe que está perdendo dinheiro, por que continua apostando?"

"Se ela sabe que passa horas no celular, por que não desinstala o aplicativo?"

"Se sabe que a pornografia está causando problemas no relacionamento, por que continua?"

"Se sabe que beber está prejudicando sua vida, por que não para?"

Porque saber que algo faz mal não é necessariamente suficiente para conseguir interromper um comportamento aprendido e reforçado ao longo do tempo.

Conhecimento e mudança são coisas diferentes.

É possível saber racionalmente que determinada atitude prejudica a própria vida e, ainda assim, sentir uma dificuldade enorme para modificá-la.

Isso não significa ausência de responsabilidade.

Significa que precisamos compreender o funcionamento do comportamento para poder transformá-lo.

O que existe por trás do comportamento?

Na psicoterapia, uma pergunta importante não é apenas:

"Como faço para parar?"

Também podemos investigar:

"O que acontece antes de eu fazer isso?"

"O que eu estava sentindo?"

"O que eu estava pensando?"

"O que esse comportamento proporciona naquele momento?"

"O que acontece depois?"

"O que eu evito sentir quando faço isso?"

Essas perguntas ajudam a identificar gatilhos e padrões.

E, principalmente, permitem compreender que o comportamento compulsivo pode ter uma função dentro da vida daquela pessoa.

Uma perspectiva psicológica: o sintoma também pode comunicar algo

Na Psicologia Analítica, podemos olhar para os sintomas não apenas como algo que precisa ser eliminado, mas também como manifestações que podem indicar conflitos e conteúdos que precisam ser compreendidos.

Isso não significa romantizar o vício ou considerar que ele seja necessário.

Também não significa que todo comportamento compulsivo tenha um significado simbólico específico.

Significa reconhecer que a história de cada pessoa importa.

Um comportamento pode estar relacionado a conflitos, necessidades, desejos, medos ou experiências que ainda não foram suficientemente elaborados.

Por isso, compreender o contexto em que o comportamento surgiu pode ser tão importante quanto tentar interrompê-lo.

O objetivo não é trocar um vício por outro

Às vezes, quando alguém tenta interromper um comportamento compulsivo, procura imediatamente outra forma de obter o mesmo alívio.

Pode abandonar as apostas e passar a consumir excessivamente álcool.

Pode reduzir as redes sociais e aumentar compulsivamente o trabalho.

Pode interromper um comportamento e encontrar outro que cumpra função semelhante.

Por isso, tratar apenas o comportamento pode não ser suficiente em alguns casos.

É importante desenvolver outras maneiras de lidar com ansiedade, frustração, solidão, tédio, insegurança e outras experiências emocionais.

Quanto mais alternativas uma pessoa possui para lidar com aquilo que sente, menos um único comportamento precisa ocupar esse lugar.

Então, por que desenvolvemos vícios?

Não existe uma resposta única.

Os vícios e comportamentos compulsivos podem resultar da interação entre diferentes fatores:

Biológicos: características individuais, funcionamento cerebral, predisposições e efeitos das substâncias ou comportamentos.

Psicológicos: emoções, pensamentos, experiências difíceis, conflitos, autoestima, impulsividade e formas de enfrentamento.

Sociais: relações, ambiente familiar, cultura, condições de vida e redes de apoio.

Ambientais: facilidade de acesso, publicidade, disponibilidade e exposição frequente ao comportamento.

Por isso, compreender um vício exige olhar para a pessoa de maneira integral.

Quando procurar ajuda psicológica?

Não é necessário esperar que o problema se torne grave para buscar ajuda.

Pode ser importante procurar um psicólogo quando você percebe:

  • dificuldade repetida para controlar determinado comportamento;

  • tentativas de parar que não se sustentam;

  • preocupação constante com o comportamento;

  • sofrimento emocional antes ou depois de realizá-lo;

  • prejuízos financeiros, profissionais ou afetivos;

  • necessidade de esconder o comportamento;

  • uso do comportamento como principal forma de aliviar emoções;

  • sensação de que sua vida está começando a girar em torno dele.

Buscar ajuda não significa assumir um rótulo.

Significa reconhecer que algo está causando sofrimento e que talvez seja necessário compreender esse padrão com mais profundidade.

A psicoterapia pode ajudar a compreender esse ciclo

A psicoterapia pode oferecer um espaço para investigar os padrões que sustentam um comportamento compulsivo, reconhecer gatilhos, compreender emoções e construir outras formas de lidar com situações difíceis.

Em alguns casos, especialmente quando existe dependência de álcool, outras drogas ou sofrimento intenso, o acompanhamento psicológico pode fazer parte de um tratamento multiprofissional.

O mais importante é não enfrentar a situação sozinho por vergonha.

O comportamento pode ter se tornado automático, mas isso não significa que você tenha perdido para sempre a capacidade de escolher.

Compreender o ciclo é um dos primeiros passos para começar a modificá-lo.

Você percebe que um comportamento está ocupando espaço demais na sua vida?

Se você tem percebido dificuldades relacionadas a vícios, compulsões, apostas, pornografia, redes sociais, compras, alimentação, trabalho ou outros comportamentos repetitivos, a psicoterapia pode ser um espaço de acolhimento e reflexão, sem julgamentos.

O primeiro passo não precisa ser saber exatamente o que está acontecendo.

Pode ser simplesmente reconhecer:

"Eu não estou conseguindo lidar com isso sozinho."

Jean Carlo Petenlinkar de Osti | Psicólogo Junguiano
CRP 06/167860

Atendimento psicológico presencial em São Paulo e região do ABC, além de atendimento online.

Instagram: @Jean.jcpsicologia
Site: psicologojeancarlo.com.br

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