QUEM VOCÊ SE TORNA QUANDO COMEÇA A SE ESCUTAR?
Autoconhecimento não é encontrar uma versão perfeita de si mesmo, mas construir uma relação mais consciente com quem você é
Existe um momento no processo de autoconhecimento em que algumas perguntas começam a mudar.
Antes, talvez você perguntasse:
“O que esperam de mim?”
Depois:
“O que eu realmente quero?”
E, pouco a pouco, surge uma pergunta ainda mais profunda:
“Como posso viver de uma maneira que seja mais coerente com quem estou me tornando?”
Essa pergunta pode parecer simples.
Mas respondê-la exige coragem.
Porque se escutar de verdade pode significar perceber que algumas escolhas já não fazem sentido.
Que determinados relacionamentos precisam ser revistos.
Que alguns limites foram ultrapassados.
Que certas expectativas nunca foram realmente suas.
Que uma identidade construída durante muitos anos talvez precise se transformar.
E também que algumas partes de você, durante muito tempo deixadas de lado, estão pedindo espaço.
Autoconhecimento não é necessariamente confortável.
Mas pode ser profundamente transformador.
Talvez você tenha passado muito tempo aprendendo a ser quem esperavam
Desde cedo, recebemos mensagens sobre quem deveríamos ser.
Como devemos nos comportar.
O que significa ter sucesso.
O que devemos desejar.
Como devemos construir nossos relacionamentos.
O que significa ser uma boa pessoa.
O que devemos esconder.
O que podemos mostrar.
Aos poucos, vamos construindo uma maneira de existir no mundo.
Aprendemos a desempenhar papéis.
A nos adaptar.
A buscar aprovação.
A evitar conflitos.
A proteger determinadas partes de nós.
Esses mecanismos fazem parte do desenvolvimento humano.
Precisamos aprender a viver em sociedade.
Precisamos estabelecer vínculos.
Precisamos compreender limites.
Precisamos desenvolver recursos para lidar com diferentes situações.
O problema aparece quando a adaptação se torna tão intensa que já não conseguimos distinguir:
“Isso faz parte de mim?”
ou
“Eu aprendi que precisava ser assim?”
Se escutar não significa fazer tudo o que você sente
Quando falamos em autenticidade, existe uma interpretação equivocada:
“Ser autêntico é fazer exatamente aquilo que tenho vontade.”
Não necessariamente.
Sentir não é o mesmo que agir.
Você pode sentir raiva sem precisar ser agressivo.
Pode sentir medo e ainda assim tomar uma decisão.
Pode desejar algo e escolher não realizá-lo.
Pode estar frustrado e continuar respeitando alguém.
Pode querer mudar tudo e, ainda assim, decidir fazer essa mudança de maneira gradual.
Autoconhecimento não significa obedecer cegamente aos impulsos.
Significa compreender o que acontece dentro de você para poder escolher com mais consciência.
O que acontece quando começamos a perceber nossas próprias necessidades?
Talvez você descubra que está cansado.
Não apenas fisicamente.
Cansado de determinadas exigências.
Cansado de sempre cuidar.
Cansado de tentar agradar.
Cansado de provar seu valor.
Cansado de desempenhar um papel.
E talvez descubra também que algumas necessidades foram ignoradas durante muito tempo.
Necessidade de descanso.
De reconhecimento.
De autonomia.
De afeto.
De segurança.
De liberdade.
De pertencimento.
De ser respeitado.
De poder existir sem precisar se explicar o tempo inteiro.
Reconhecer essas necessidades não significa que todas poderão ser atendidas imediatamente.
Mas existe uma diferença enorme entre ter uma necessidade reconhecida e continuar vivendo como se ela não existisse.
Nem tudo aquilo que descobrimos sobre nós será confortável
Autoconhecimento também significa encontrar contradições.
Podemos descobrir que queremos liberdade e, ao mesmo tempo, temos medo dela.
Queremos intimidade, mas tememos a vulnerabilidade.
Desejamos mudança, mas sentimos saudade do conhecido.
Queremos estabelecer limites, mas temos medo de decepcionar.
Queremos ser reconhecidos, mas não queremos depender da aprovação.
Somos capazes de amar alguém e, ainda assim, reconhecer que aquela relação não nos faz bem.
Somos fortes em algumas situações e extremamente vulneráveis em outras.
Ser humano é conviver com essas contradições.
Por isso, autoconhecimento não significa chegar a uma definição perfeita sobre quem somos.
Significa conseguir sustentar perguntas que antes precisávamos evitar.
Na Psicologia Analítica, tornar-se quem somos é um processo
Jung chamou de individuação um processo de desenvolvimento psicológico relacionado à construção de uma relação mais consciente com a totalidade da própria personalidade.
Isso não significa descobrir uma identidade definitiva.
Também não significa afastar-se das pessoas ou viver exclusivamente para si.
Individuação envolve reconhecer diferentes aspectos de quem somos.
Nossa consciência.
Nossos conflitos.
Nossas vulnerabilidades.
Nossos desejos.
Nossa sombra.
Nossos valores.
Nossos vínculos.
Nossas contradições.
E aprender a estabelecer uma relação mais consciente entre essas diferentes dimensões.
É um processo.
Não existe um momento em que alguém finalmente possa dizer:
“Agora eu me conheço completamente.”
Talvez conhecer a si mesmo seja justamente continuar descobrindo.
A sombra não desaparece porque preferimos não olhar para ela
Ao longo desta série, falamos algumas vezes sobre a sombra.
Ela merece retornar aqui porque nenhum processo de autoconhecimento é completo quando reconhecemos apenas aquilo que consideramos bonito em nós mesmos.
Todos temos aspectos que preferimos não enxergar.
Raiva.
Insegurança.
Ciúme.
Medo.
Necessidade de reconhecimento.
Desejo de controle.
Vulnerabilidade.
Dependência.
Ambição.
Ressentimento.
Isso não significa que somos definidos por esses aspectos.
Significa que eles fazem parte da complexidade humana.
Quando conseguimos reconhecê-los, podemos escolher melhor como lidar com eles.
Quando tentamos negar completamente sua existência, eles podem continuar influenciando nossas escolhas sem que percebamos.
Conhecer a sombra não significa dar espaço para qualquer comportamento.
Significa ampliar a consciência sobre aquilo que existe em nós.
Talvez algumas pessoas não reconheçam mais a pessoa que você está se tornando
Essa é uma parte importante da mudança.
Quando você começa a estabelecer limites, algumas pessoas podem dizer:
“Você mudou.”
E talvez tenham razão.
Você mudou.
Mas mudar não significa necessariamente deixar de ser quem você é.
Pode significar deixar de ser aquilo que você precisou ser para sobreviver, pertencer ou ser aceito em determinado momento.
A pessoa que sempre dizia sim começa a dizer não.
A pessoa que nunca pedia ajuda começa a pedir.
A pessoa que escondia seus sentimentos começa a falar sobre eles.
A pessoa que vivia tentando agradar começa a considerar suas próprias necessidades.
Para quem estava acostumado com a versão anterior, essa transformação pode ser desconfortável.
E isso pode despertar culpa.
Mas talvez seja importante lembrar:
crescer também significa permitir que algumas relações conheçam novas versões de nós.
O medo de decepcionar pode continuar existindo
Se você passou muitos anos buscando aprovação, começar a se posicionar não significa que o medo desaparecerá imediatamente.
Você pode dizer não e sentir culpa.
Pode estabelecer um limite e ficar inseguro.
Pode fazer uma escolha diferente e imaginar o que os outros estão pensando.
Isso não significa necessariamente que você tomou a decisão errada.
Às vezes, significa apenas que está fazendo algo diferente do que aprendeu.
O desconforto pode ser parte do processo.
Com o tempo, podemos aprender que:
desagradar alguém não é o mesmo que machucar alguém.
ser diferente não é o mesmo que estar errado.
ter limites não é o mesmo que ser egoísta.
pedir ajuda não é o mesmo que ser fraco.
mudar não é o mesmo que abandonar quem fomos.
E quem você é quando não está tentando provar nada?
Talvez essa seja uma das perguntas mais profundas de toda esta série.
Se você não precisasse provar que é competente...
Quem seria?
Se não precisasse demonstrar força...
O que sentiria?
Se não precisasse agradar...
O que escolheria?
Se não precisasse corresponder às expectativas...
Que caminho gostaria de experimentar?
Se não precisasse ser perfeito...
O que se permitiria fazer?
Talvez não exista uma resposta imediata.
Mas a pergunta pode permanecer.
E algumas perguntas transformam nossa maneira de olhar para a própria vida.
Autoconhecimento não significa abandonar quem você foi
Existe uma tendência de pensar que, para mudar, precisamos rejeitar nosso passado.
Mas sua história não é um erro que precisa ser apagado.
As versões anteriores de você fizeram escolhas com os recursos que tinham naquele momento.
Talvez tenham errado.
Talvez tenham se protegido.
Talvez tenham aceitado coisas que hoje não aceitariam.
Talvez tenham feito o melhor que conseguiram.
Olhar para isso com consciência é diferente de romantizar o passado.
Podemos reconhecer:
“Naquele momento, eu precisava funcionar dessa maneira.”
E também:
“Hoje, talvez eu possa escolher diferente.”
Essa é uma das possibilidades mais bonitas do autoconhecimento.
Não precisamos odiar quem fomos para construir quem estamos nos tornando.
Talvez a pergunta não seja “quem eu sou?”
Talvez seja:
“Quem estou me tornando?”
Porque somos seres em movimento.
Nossas experiências nos transformam.
Relacionamentos nos transformam.
Perdas nos transformam.
Mudanças profissionais nos transformam.
Amadurecimento nos transforma.
O próprio processo terapêutico pode nos transformar.
Por isso, talvez seja mais interessante acompanhar o movimento da própria vida do que tentar encontrar uma definição definitiva sobre nós mesmos.
Quem você era há dez anos?
Quem você é hoje?
O que mudou?
O que permaneceu?
O que ainda está tentando nascer?
Essas perguntas podem revelar que talvez você esteja muito mais em processo do que imaginava.
A psicoterapia como espaço de encontro consigo mesmo
A psicoterapia pode ser um espaço importante nesse processo porque nem sempre conseguimos observar nossa própria história com distância suficiente.
Existem pontos cegos.
Padrões que parecem normais porque sempre estiveram presentes.
Relacionamentos que interpretamos de determinada maneira.
Medos que confundimos com intuição.
Culpas que confundimos com responsabilidade.
Necessidades que aprendemos a considerar exageradas.
Na psicoterapia, essas experiências podem ser investigadas com cuidado.
Não para que alguém diga quem você deve ser.
Mas para que você possa compreender melhor como se tornou quem é e quais possibilidades existem para continuar se desenvolvendo.
Na Psicologia Analítica, esse caminho pode envolver justamente o encontro com diferentes dimensões da personalidade e a construção gradual de uma relação mais consciente consigo mesmo.
Talvez se conhecer seja aprender a permanecer ao seu lado
Talvez essa seja a síntese de todo o processo.
Não abandonar a si mesmo quando estiver confuso.
Não se rejeitar porque sente algo que gostaria de não sentir.
Não se punir porque ainda não conseguiu mudar.
Não se diminuir para ser aceito.
Não exigir perfeição para considerar que está evoluindo.
Se conhecer também é aprender a permanecer próximo de si mesmo nos momentos em que você menos gosta daquilo que encontra.
Com curiosidade.
Com responsabilidade.
Com honestidade.
Com cuidado.
O que muda quando começamos a nos escutar?
Talvez não seja a vida inteira.
Talvez seja a maneira como passamos a viver dentro dela.
Continuaremos enfrentando problemas.
Continuaremos sentindo medo.
Ainda teremos dúvidas.
Ainda poderemos errar.
Ainda vamos decepcionar algumas pessoas.
Ainda teremos momentos de ansiedade.
Mas talvez possamos responder a tudo isso de maneira diferente.
Em vez de perguntar apenas:
“Como faço para que tudo fique bem?”
podemos perguntar:
“Como posso permanecer consciente de mim enquanto atravesso isso?”
Essa mudança de perspectiva pode ser profunda.
Porque autoconhecimento não promete uma vida sem sofrimento.
Ele pode oferecer algo diferente:
uma relação mais consciente com aquilo que vivemos.
Para refletir
Ao finalizar esta série, talvez você possa guardar algumas perguntas:
Quem eu aprendi que deveria ser?
Quem eu sou quando não preciso agradar ninguém?
Quais padrões continuo repetindo?
O que tenho medo de mudar?
Que partes de mim ainda tenho dificuldade de reconhecer?
Quais necessidades venho ignorando?
Onde tenho vivido mais para corresponder do que para escolher?
E talvez a pergunta mais importante:
“Que tipo de relação quero construir comigo mesmo daqui para frente?”
Você não precisa responder tudo agora.
Algumas respostas precisam de tempo.
Algumas precisam de experiências.
Algumas surgem quando conseguimos falar sobre aquilo que durante muito tempo permaneceu em silêncio.
O autoconhecimento não é chegar a um lugar onde finalmente descobrimos quem somos.
É aprender a caminhar conosco.
É olhar para dentro sem precisar fugir de tudo aquilo que encontramos.
E talvez seja justamente aí que comece uma forma mais consciente de viver.
Jean Carlo Petenlinkar de Osti
Psicólogo — CRP 06/167860
Psicologia Analítica / Junguiana
JC Clínica de Psicologia
Série: Autoconhecimento — uma jornada para dentro
Artigo 5 — Encerramento da série