POR QUE REPETIMOS COMPORTAMENTOS QUE SABEMOS QUE NOS FAZEM MAL?
Quando aquilo que conhecemos parece mais seguro do que aquilo que poderia ser diferente
Você já percebeu que está repetindo uma situação que sabe que não faz bem?
Talvez escolha relacionamentos parecidos.
Talvez volte a assumir responsabilidades demais.
Talvez continue dizendo “sim” quando gostaria de dizer “não”.
Talvez reconheça que determinada maneira de agir provoca sofrimento, mas, mesmo assim, quando percebe, está fazendo tudo novamente.
Então surge uma pergunta:
“Se eu sei que isso me faz mal, por que continuo repetindo?”
Essa pergunta pode vir acompanhada de culpa.
“Eu deveria saber melhor.”
“Eu já passei por isso antes.”
“Por que não consigo simplesmente mudar?”
Mas o comportamento humano é muito mais complexo do que uma decisão racional.
Nem sempre aquilo que sabemos conscientemente é suficiente para transformar aquilo que fazemos.
Saber não significa conseguir mudar
Existe uma diferença importante entre compreender intelectualmente um padrão e conseguir transformá-lo.
Você pode saber que precisa estabelecer limites e continuar tendo dificuldade de dizer não.
Pode saber que determinada relação não está fazendo bem e ainda sentir dificuldade de se afastar.
Pode compreender que precisa descansar e continuar trabalhando além dos próprios limites.
Pode saber que determinada situação provoca ansiedade e, mesmo assim, voltar a agir da mesma maneira.
Isso não significa necessariamente falta de vontade.
Significa que nossos comportamentos também estão relacionados à nossa história, às nossas emoções, às nossas necessidades e às formas que encontramos para lidar com o mundo.
Muitas vezes, aquilo que hoje parece prejudicial um dia teve uma função.
E compreender essa função pode ser um passo importante para mudar.
O que um comportamento pode estar tentando proteger?
Imagine alguém que nunca consegue dizer não.
À primeira vista, parece simplesmente falta de assertividade.
Mas talvez exista algo por trás:
“Se eu disser não, vão deixar de gostar de mim.”
Ou:
“Se eu não ajudar, vão pensar que sou egoísta.”
Ou:
“Se eu colocar meus limites, vou perder essa relação.”
Nesse caso, dizer sim não é apenas um comportamento.
Pode ser uma maneira de preservar vínculos.
Agora imagine alguém que evita constantemente situações novas.
Pode parecer falta de coragem.
Mas talvez exista o medo de fracassar.
Ou de ser julgado.
Ou de descobrir que não é capaz.
Ou de perder o controle.
O comportamento que parece “irracional” pode fazer sentido quando compreendemos aquilo que ele está tentando evitar.
O familiar pode parecer mais seguro, mesmo quando dói
Existe algo paradoxal nos padrões repetitivos:
aquilo que conhecemos pode parecer mais seguro do que aquilo que é melhor para nós.
Uma relação conhecida, ainda que difícil, pode parecer menos assustadora do que a possibilidade de ficar sozinho.
Uma rotina desgastante pode parecer mais segura do que começar novamente.
Uma posição profissional que provoca sofrimento pode parecer preferível à incerteza de uma mudança.
Continuar agradando pode parecer menos arriscado do que descobrir o que acontece quando começamos a estabelecer limites.
Não significa que gostamos de sofrer.
Significa que o desconhecido também pode provocar medo.
Por isso, mudar não é apenas abandonar um comportamento.
É também aprender a tolerar a insegurança que pode surgir quando deixamos de fazer aquilo que sempre fizemos.
Repetir não significa que você queira sofrer
Essa é uma distinção importante.
Quando alguém repete um padrão que provoca sofrimento, pode surgir a ideia:
“Então, no fundo, eu devo querer isso.”
Não necessariamente.
Podemos repetir algo que não desejamos
Essa é uma distinção importante.
Quando alguém repete um padrão que provoca sofrimento, pode surgir a ideia:
“Então, no fundo, eu devo querer isso.”
Não necessariamente.
Podemos repetir algo que não desejamos conscientemente porque aquele comportamento está associado a necessidades, crenças ou formas de proteção que ainda não conseguimos reconhecer completamente.
Uma pessoa pode desejar profundamente uma relação saudável e, ao mesmo tempo, sentir-se atraída por relações nas quais precisa conquistar constantemente a atenção do outro.
Pode querer descansar e, ainda assim, sentir culpa quando não está produzindo.
Pode desejar autonomia e continuar procurando aprovação.
Pode querer ser respeitada e, mesmo assim, ter dificuldade de estabelecer limites.
As contradições fazem parte da experiência humana.
Quando aquilo que aprendemos se torna automático
Grande parte dos nossos comportamentos não exige uma decisão consciente a cada momento.
Aprendemos maneiras de reagir.
Aprendemos o que esperar das pessoas.
Aprendemos como lidar com conflitos.
Aprendemos como pedir ajuda — ou como não pedir.
Aprendemos como demonstrar afeto.
Aprendemos como lidar com a rejeição.
Aprendemos como nos proteger.
Esses aprendizados podem se tornar tão familiares que começamos a reproduzi-los automaticamente.
Por isso, às vezes, a pessoa percebe que repetiu determinado comportamento somente depois que ele aconteceu.
“Quando percebi, já estava fazendo novamente.”
Isso não significa que não exista possibilidade de mudança.
Significa que a mudança começa muitas vezes quando aquilo que era automático passa a ser observado.
O conceito de complexo na Psicologia Analítica
Na Psicologia Analítica, Jung desenvolveu o conceito de complexo para compreender conjuntos de emoções, memórias, ideias e experiências que podem se organizar em torno de determinados temas da vida psíquica.
Os complexos podem influenciar nossa maneira de perceber e reagir às situações, muitas vezes sem que tenhamos plena consciência disso.
Por exemplo, uma pessoa que viveu experiências de rejeição pode se tornar especialmente sensível a sinais de afastamento.
Uma pequena mudança na comunicação de alguém pode despertar uma reação emocional muito maior do que a situação aparentemente justificaria.
Não porque a pessoa esteja “exagerando de propósito”.
Mas porque aquela situação atual pode tocar experiências anteriores que continuam emocionalmente significativas.
É como se o presente encontrasse algo do passado que ainda não foi completamente elaborado.
Por que algumas situações parecem despertar uma reação maior do que deveriam?
Você já teve uma reação emocional muito intensa diante de algo aparentemente pequeno?
Uma mensagem que demorou para ser respondida.
Uma crítica.
Um olhar diferente.
Uma mudança de planos.
Uma pessoa que não demonstrou a atenção que você esperava.
Às vezes, o acontecimento presente é apenas uma parte da experiência.
O que sentimos pode estar relacionado também ao significado que atribuímos à situação e às experiências que ela desperta.
Por isso, uma pergunta interessante pode ser:
“O que exatamente nessa situação me afetou tanto?”
E depois:
“Essa sensação me é familiar?”
Talvez você reconheça algo.
Talvez já tenha sentido isso antes.
Talvez esteja diante de um padrão.
Repetição também pode ser uma tentativa de resolver aquilo que ficou sem resposta
Algumas experiências permanecem emocionalmente abertas.
Uma rejeição.
Uma perda.
Uma relação marcada por insegurança.
Uma experiência de abandono.
Uma infância em que era necessário agradar para receber reconhecimento.
Uma situação em que você aprendeu que demonstrar vulnerabilidade poderia trazer consequências.
Podemos carregar essas experiências para novos contextos.
E, sem perceber, tentar encontrar uma resolução diferente.
Como se uma parte de nós esperasse que, dessa vez, a história terminasse de outra maneira.
Mas a repetição também pode manter a pessoa presa ao mesmo padrão.
Por isso, compreender o que se repete pode ser mais importante do que simplesmente tentar interromper o comportamento.
A sombra também participa daquilo que repetimos
Na Psicologia Analítica, a sombra reúne aspectos que não reconhecemos facilmente ou que foram afastados da consciência.
Isso pode incluir sentimentos, desejos, características e necessidades que não combinam com a imagem que construímos de nós mesmos.
Imagine uma pessoa que acredita ser sempre calma, gentil e compreensiva.
Ela pode ter dificuldade de reconhecer sua raiva.
Mas a raiva continua existindo.
Pode aparecer em pequenas irritações.
No ressentimento.
Na passividade.
No afastamento.
Ou em momentos de explosão.
Da mesma forma, alguém que acredita precisar ser completamente independente pode não reconhecer sua necessidade de cuidado.
Alguém que precisa ser perfeito pode ter dificuldade de aceitar limitações.
Alguém que precisa agradar pode não reconhecer o quanto está frustrado.
Aquilo que não reconhecemos não necessariamente deixa de existir.
Pode continuar influenciando nossas escolhas.
Mudar não significa lutar contra uma parte de você
Quando percebemos um padrão, é comum reagirmos com rejeição:
“Preciso parar de ser assim.”
Mas talvez seja mais produtivo perguntar:
“Por que me tornei assim?”
Essa pergunta muda a relação com o próprio comportamento.
Em vez de combater uma parte de nós como se ela fosse um inimigo, começamos a investigar sua história.
Quando aprendi isso?
O que esse comportamento me proporcionava?
Do que ele tentava me proteger?
O que temo perder se agir diferente?
Que necessidade existe por trás dele?
O que aconteceria se eu não precisasse mais dessa estratégia?
Essas perguntas podem abrir espaço para uma mudança mais profunda.
O que acontece quando finalmente tentamos fazer diferente?
Mesmo quando sabemos que um padrão nos faz mal, mudar pode provocar ansiedade.
Você começa a dizer não.
E sente culpa.
Estabelece um limite.
E sente medo.
Decide não responder imediatamente.
E sente necessidade de verificar o celular.
Começa a se afastar de uma relação que machuca.
E sente saudade.
Isso pode gerar uma interpretação equivocada:
“Está vendo? Eu não consigo mudar.”
Mas talvez o desconforto não seja sinal de que a mudança está errada.
Talvez seja parte dela.
Quando fazemos algo diferente do habitual, nosso sistema precisa aprender uma nova maneira de funcionar.
Por isso, mudança não significa ausência imediata de desconforto.
Às vezes, significa aprender a permanecer diante do desconforto sem voltar automaticamente ao padrão antigo.
Nem toda repetição precisa ser eliminada
Existe também uma diferença entre reconhecer padrões e transformar toda repetição em um problema.
Todos nós temos hábitos.
Preferências.
Formas de organização.
Maneiras de nos relacionar.
Repetição faz parte da vida.
A questão é perceber quando determinado padrão
começa a limitar nossas possibilidades, provocar sofrimento ou nos afastar daquilo que consideramos importante.
Não precisamos mudar tudo sobre nós.
Precisamos compreender aquilo que precisa ser transformado.
Talvez você não esteja repetindo porque é fraco
Essa pode ser uma das mensagens mais importantes.
Se existe um comportamento que você deseja mudar e ainda não conseguiu, isso não significa
automaticamente que lhe falte força de vontade.
Talvez exista algo que ainda não foi compreendido.
Talvez exista um medo.
Uma necessidade.
Uma crença.
Uma experiência.
Uma forma de proteção.
Um conflito interno.
E talvez a mudança comece justamente quando deixamos de perguntar:
“Por que sou tão fraco?”
e começamos a perguntar:
“O que esse comportamento está tentando fazer por mim?”
Psicoterapia: compreender antes de transformar
A psicoterapia pode oferecer um espaço para observar padrões que, sozinhos, podem ser difíceis de perceber.
Por que determinadas relações se repetem?
Por que alguns conflitos aparecem novamente?
Por que certos comportamentos surgem justamente quando estamos vulneráveis?
O que sentimos antes de agir?
O que tentamos evitar?
O que temos medo de perder?
Que partes de nós ainda não conseguimos reconhecer?
Na Psicologia Analítica, esse processo pode envolver um olhar cuidadoso para a história pessoal, os complexos, a sombra, os conflitos internos e os sentidos que determinados comportamentos adquiriram ao longo da vida.
Não para encontrar uma explicação única para tudo.
Mas para ampliar a consciência.
Porque aquilo que se torna consciente pode começar a ser escolhido de outra maneira.
Talvez a liberdade esteja entre o impulso e a escolha
Imagine que determinada situação desperta em você uma reação automática.
Antes, você simplesmente reagia.
Agora, começa a perceber:
“Eu conheço esse caminho.”
E, pela primeira vez, consegue fazer uma pausa.
Respirar.
Observar.
Perguntar.
“Preciso mesmo responder dessa maneira?”
Talvez ainda escolha fazer o que sempre fez.
Mas agora existe consciência.
E, com o tempo, pode surgir outra possibilidade.
Um comportamento diferente.
Uma resposta diferente.
Um limite.
Um pedido.
Um silêncio.
Uma escolha.
Talvez seja assim que mudanças profundas começam.
Não necessariamente com uma grande transformação.
Mas com um pequeno espaço entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos com o que sentimos.
Você pode construir novas formas de viver
Não precisamos apagar nossa história para mudar.
O passado continua fazendo parte de nós.
Mas podemos construir novas relações com aquilo que vivemos.
Podemos reconhecer antigos padrões sem continuar presos a eles.
Podemos compreender nossas defesas sem precisar viver permanentemente dentro delas.
Podemos reconhecer nossas vulnerabilidades sem considerá-las fraquezas.
Podemos estabelecer limites.
Podemos experimentar novas formas de relacionamento.
Podemos aprender a escolher diferente.
E talvez autoconhecimento seja justamente isso:
não descobrir uma versão perfeita de quem você deveria ser, mas tornar-se mais consciente das escolhas que faz.
Para refletir
Na próxima vez que perceber que está repetindo algo que sabe que não lhe faz bem, tente fazer uma pausa antes de se julgar.
Pergunte:
O que estou prestes a repetir?
O que esse comportamento tenta evitar?
O que ele tenta proteger?
Que sentimento aparece quando penso em fazer diferente?
Esse padrão me lembra alguma experiência anterior?
O que poderia acontecer se, desta vez, eu escolhesse uma resposta diferente?
Você não precisa mudar tudo de uma vez.
Talvez o primeiro passo seja simplesmente perceber o padrão no momento em que ele acontece.
Porque, quando deixamos de agir completamente no automático, surge algo novo:
a possibilidade de escolher.
Jean Carlo Petenlinkar de Osti
Psicólogo — CRP 06/167860
Psicologia Analítica / Junguiana
JC Clínica de Psicologia
Série: Autoconhecimento — uma jornada para dentro
Artigo 3