QUANDO A NECESSIDADE DE APROVAÇÃO COMEÇA A AFASTAR VOCÊ DE SI MESMO

Você já concordou com alguma coisa quando, na verdade, queria dizer não?

Já mudou de opinião para evitar um conflito?

Já deixou de expressar o que sentia porque imaginou que alguém poderia ficar decepcionado?

Talvez você tenha se acostumado a perguntar:

“O que será que vão pensar de mim?”

Antes mesmo de perguntar:

“O que eu realmente penso sobre isso?”

A necessidade de ser aceito faz parte da experiência humana. Queremos pertencer, ser reconhecidos e manter vínculos importantes.

O problema começa quando a aprovação dos outros se torna tão importante que passamos a tomar decisões principalmente para evitar rejeição, críticas ou desapontamento.

E, pouco a pouco, podemos nos afastar de nós mesmos.

QUANDO AGRADAR COMEÇA A PARECER UMA OBRIGAÇÃO

A pessoa que procura agradar todo mundo geralmente não acorda um dia decidindo:

“A partir de hoje, vou esquecer de mim.”

Esse padrão costuma ser construído aos poucos.

Aprendemos que determinadas atitudes recebem aprovação.

Aprendemos também que outras provocam críticas, afastamento ou conflitos.

Então começamos a observar:

O que posso dizer?

O que é melhor não dizer?

Como devo me comportar?

O que esperam de mim?

Como faço para não decepcionar?

Essa capacidade de perceber o outro pode ser uma qualidade.

Mas, quando se torna excessiva, podemos começar a viver em função de uma pergunta constante:

“Como preciso ser para continuar sendo aceito?”

O PREÇO DE NUNCA DECEPCIONAR NINGUÉM

Imagine alguém que raramente diz não.

No trabalho, aceita tarefas além do que consegue realizar.

Na família, resolve problemas que poderiam ser compartilhados.

Nos relacionamentos, abre mão de suas necessidades para evitar discussões.

Entre amigos, adapta seus planos para acompanhar os outros.

Por fora, essa pessoa pode parecer extremamente generosa.

Por dentro, pode estar acumulando cansaço, ressentimento e frustração.

Até que surge uma sensação difícil de compreender:

“Eu faço tanto pelos outros, mas parece que ninguém percebe o que eu preciso.”

Talvez o problema não seja simplesmente que os outros não percebem.

Talvez você tenha passado tanto tempo escondendo suas necessidades que as pessoas sequer tiveram a oportunidade de conhecê-las.

Dizer “sim” quando queremos dizer “não”

Uma das formas mais comuns de buscar aprovação é ter dificuldade de estabelecer limites.

Você recebe um pedido.

Sua primeira reação interna é:

“Eu não quero.”

Mas imediatamente aparece outra voz:

“E se a pessoa ficar chateada?”

“E se pensar que sou egoísta?”

“E se parar de gostar de mim?”

“E se eu parecer uma pessoa ruim?”

Então você diz:

“Tudo bem.”

E talvez naquele momento sinta alívio.

O conflito foi evitado.

A outra pessoa ficou satisfeita.

Mas você ficou com o peso daquilo que não queria fazer.

Quando isso se repete muitas vezes, pode surgir uma relação difícil consigo mesmo: você aprende que a tranquilidade dos outros é mais importante do que o seu próprio desconforto.

Ser uma pessoa boa não significa estar disponível o tempo inteiro

Existe uma confusão importante entre generosidade e autoabandono.

Ser generoso é poder oferecer algo ao outro por escolha.

Autoabandono é sentir que você precisa abrir mão de si mesmo para preservar a relação.

Você pode ajudar alguém sem assumir todas as responsabilidades dessa pessoa.

Pode amar sem concordar com tudo.

Pode compreender o sofrimento de alguém sem aceitar ser desrespeitado.

Pode se importar e ainda assim estabelecer limites.

Pode dizer não e continuar sendo uma pessoa ética, amorosa e cuidadosa.

Limite não é ausência de afeto.

Às vezes, é justamente uma maneira de tornar as relações mais honestas.

E quando você não sabe mais o que quer?

Talvez essa seja uma das consequências mais silenciosas de viver tentando agradar.

Depois de muito tempo perguntando:

“O que o outro quer de mim?”

podemos perder contato com uma pergunta fundamental:

“O que eu quero?”

Algumas pessoas conseguem identificar facilmente aquilo que não querem.

Mas têm dificuldade de dizer o que desejam.

“Você prefere ir aonde?”

“Qualquer lugar.”

“Quer fazer o quê?”

“Tanto faz.”

“Você gostou?”

“Gostei.”

À primeira vista, parecem respostas simples.

Mas, quando esse “tanto faz” aparece constantemente, pode valer a pena investigar:

“Eu realmente não tenho preferência ou aprendi que expressar minhas preferências pode gerar conflito?”

A persona e a necessidade de ser aceito

Na Psicologia Analítica, Jung utilizou o conceito de persona para compreender os papéis e imagens que desenvolvemos para nos relacionar com o mundo.

Todos nós temos diferentes formas de nos apresentar.

Podemos ser mais profissionais no trabalho, mais descontraídos entre amigos, mais cuidadosos com determinadas pessoas.

Isso é saudável e necessário.

O problema aparece quando a persona se torna rígida e começamos a acreditar que precisamos manter determinada imagem para sermos aceitos.

A pessoa que precisa ser sempre gentil pode não se permitir sentir raiva.

A pessoa que precisa ser forte pode esconder sua fragilidade.

A pessoa que precisa agradar pode não reconhecer seus próprios limites.

A pessoa que precisa parecer independente pode ter dificuldade de pedir ajuda.

A imagem que apresentamos ao mundo pode começar a ocupar espaço demais.

E aquilo que somos por trás dela pode ficar cada vez mais distante.

O medo de ser rejeitado pode nos fazer rejeitar a nós mesmos

Essa talvez seja uma das partes mais dolorosas desse processo.

Para evitar que alguém nos rejeite, podemos começar a rejeitar partes de nós mesmos.

Escondemos opiniões.

Escondemos sentimentos.

Escondemos desejos.

Escondemos nossa vulnerabilidade.

Mudamos nossa aparência.

Adaptamos nosso comportamento.

Silenciamos nossa voz.

Tudo para preservar o vínculo.

Em algum momento, porém, pode surgir uma pergunta:

“Quantas partes de mim precisei esconder para ser aceito?”

Essa pergunta não precisa ser respondida com culpa.

Muitas vezes, essas adaptações foram estratégias importantes em determinados momentos da vida.

Talvez você tenha aprendido a agradar porque precisava se proteger.

Talvez tenha aprendido a ficar em silêncio porque expressar sua opinião não era seguro.

Talvez tenha aprendido a cuidar de todo mundo porque precisava conquistar reconhecimento.

Compreender isso não significa culpar o passado.

Significa perceber que aquilo que um dia foi necessário talvez não precise continuar comandando sua vida hoje.

A sombra também pode aparecer quando vivemos para agradar

Na perspectiva junguiana, aquilo que não encontra espaço na consciência pode permanecer como parte da nossa sombra.

Uma pessoa que acredita precisar ser sempre agradável pode ter dificuldade de reconhecer sua raiva.

Mas a raiva não desaparece simplesmente porque não queremos senti-la.

Ela pode aparecer como irritação, ressentimento, afastamento ou explosões depois de longos períodos de silêncio.

Isso não significa que devemos simplesmente “dar vazão” à raiva.

Significa aprender a reconhecê-la.

Porque existe uma diferença entre:

sentir raiva

e

agir de maneira agressiva.

Quando reconhecemos nossos sentimentos, podemos escolher como lidar com eles.

E essa escolha é muito diferente de simplesmente fingir que eles não existem.

Você pode decepcionar alguém e ainda assim estar fazendo uma escolha saudável

Essa talvez seja uma das aprendizagens mais difíceis para quem vive buscando aprovação.

Às vezes, estabelecer um limite vai decepcionar alguém.

Dizer não pode gerar descontentamento.

Escolher um caminho diferente pode provocar críticas.

Mudar pode fazer algumas pessoas questionarem você.

E isso não significa necessariamente que você esteja fazendo algo errado.

As pessoas ao nosso redor também possuem expectativas.

Quando mudamos, elas podem precisar se adaptar à nossa nova maneira de nos posicionar.

Isso faz parte das relações.

Ser fiel a si mesmo não significa ignorar os outros.

Significa permitir que suas necessidades também façam parte da relação.

E se você não precisasse ser amado por todos?

É impossível ser compreendido e aprovado por todas as pessoas.

Você pode ser uma pessoa ética e ainda assim ser criticado.

Pode agir com cuidado e ainda assim decepcionar alguém.

Pode fazer uma escolha legítima e receber desaprovação.

Pode ser quem você é e descobrir que algumas pessoas não irão gostar disso.

A tentativa de agradar todo mundo cria uma tarefa impossível.

Porque, para manter a aprovação de todos, você precisaria ser diferente para cada pessoa.

E, nesse processo, talvez a única pessoa que nunca seja consultada seja você.

Autoconhecimento também é descobrir suas próprias preferências

Às vezes pensamos em autoconhecimento como algo grandioso.

“Qual é o meu propósito?”

“Quem eu sou?”

“O que devo fazer da minha vida?”

Mas podemos começar de maneira muito mais simples.

O que eu gosto?

O que me incomoda?

O que me faz bem?

O que não quero mais aceitar?

Quando me sinto mais autêntico?

Com quem consigo ser eu mesmo?

Em quais situações começo a desempenhar um personagem?

O que eu faria se não estivesse preocupado com a aprovação de ninguém?

Essas perguntas podem parecer pequenas.

Mas são maneiras de começar a recuperar contato com a própria experiência.

Psicoterapia: um espaço onde você não precisa desempenhar um papel

Talvez uma das experiências mais importantes da psicoterapia seja justamente poder falar sem precisar construir uma imagem perfeita de si mesmo.

Você pode chegar confuso.

Pode dizer coisas contraditórias.

Pode admitir que sente raiva.

Pode reconhecer que está cansado.

Pode dizer que não sabe o que quer.

Pode falar sobre algo que nunca contou para ninguém.

O processo terapêutico pode ajudar a compreender os padrões que fazem você buscar aprovação, perceber os papéis que se tornaram rígidos e construir formas mais conscientes de se relacionar consigo mesmo e com os outros.

Não para deixar de se importar com as pessoas.

Mas para que a opinião dos outros deixe de ser o único lugar onde você procura autorização para existir.

Quem você é quando ninguém precisa gostar de você?

Talvez você ainda não saiba.

E tudo bem.

Essa resposta não precisa aparecer de uma vez.

Pode ser construída através de pequenas experiências:

Dizer um não.

Expressar uma opinião.

Admitir uma necessidade.

Escolher algo diferente.

Pedir ajuda.

Estabelecer um limite.

Permitir-se mudar.

Descobrir uma preferência.

E perceber que, mesmo quando alguém não aprova uma escolha sua, você continua existindo.

Continua sendo digno.

Continua podendo amar.

Continua podendo pertencer.

Continua podendo construir relações.

Talvez maturidade não seja deixar de precisar dos outros.

Talvez seja conseguir estar em relação sem precisar desaparecer dentro dela.

Para refletir

Hoje, experimente fazer uma pergunta antes de tomar uma decisão:

“Estou escolhendo isso porque realmente quero ou porque tenho medo de decepcionar alguém?”

Não é preciso mudar tudo imediatamente.

Apenas observe.

Porque talvez o caminho para uma vida mais autêntica comece justamente quando você percebe que, durante muito tempo, esteve perguntando:

“O que esperam de mim?”

E começa, finalmente, a perguntar:

“O que eu espero de mim mesmo?”

Jean Carlo Petenlinkar de Osti

Psicólogo — CRP 06/167860

Psicologia Analítica / Junguiana

JC Clínica de Psicologia

Série: Autoconhecimento — uma jornada para dentro

Artigo 2

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