Quando a ansiedade aparece no corpo
O que o corpo pode estar tentando comunicar quando a mente não consegue descansar
Você já sentiu o coração acelerar sem entender exatamente por quê?
Já percebeu os ombros tensos no final do dia, uma mandíbula dolorida ao acordar ou aquela sensação de que seu corpo simplesmente não consegue relaxar?
Talvez você tenha dificuldade para dormir porque, quando finalmente deita, percebe que está completamente tenso.
Ou talvez tenha sintomas físicos que aparecem e desaparecem, principalmente em períodos de maior preocupação.
A ansiedade não acontece apenas na mente.
O corpo também participa da experiência emocional.
E, muitas vezes, ele começa a expressar aquilo que ainda não conseguimos perceber com clareza.
Quando o corpo entra em estado de alerta
A ansiedade está relacionada a um mecanismo importante de proteção.
Diante de uma ameaça, real ou percebida, nosso organismo pode entrar em estado de alerta.
O coração acelera.
A respiração muda.
Os músculos ficam mais tensos.
A atenção se volta para possíveis sinais de perigo.
Esse mecanismo faz sentido quando precisamos reagir rapidamente a uma situação.
O problema aparece quando o organismo permanece em alerta mesmo quando não existe uma ameaça imediata.
É como se o corpo continuasse se preparando para alguma coisa acontecer.
E isso pode ser extremamente desgastante.
“Mas eu nem estou pensando em nada”
Essa frase é bastante comum.
A pessoa pode dizer:
“Eu nem estava preocupado com nada e comecei a sentir meu coração acelerar.”
Ou:
“Não estou nervoso, mas minha mandíbula está doendo.”
Isso acontece porque a experiência emocional não se resume aos pensamentos conscientes.
Podemos não estar identificando claramente uma preocupação, mas nosso organismo pode estar respondendo a uma situação de tensão.
Por isso, prestar atenção ao corpo pode ser uma maneira importante de perceber sinais que passariam despercebidos.
Não significa que todo sintoma físico seja causado por ansiedade.
Significa que corpo e experiência emocional estão profundamente relacionados.
Alguns sinais físicos que podem acompanhar a ansiedade
A ansiedade pode estar associada a diferentes manifestações físicas, entre elas:
tensão muscular;
sensação de aperto no peito;
aceleração dos batimentos cardíacos;
respiração mais rápida ou superficial;
tremores;
sudorese;
desconfortos gastrointestinais;
dores de cabeça;
sensação de cansaço;
alterações no sono;
dificuldade de concentração;
inquietação;
bruxismo e tensão na mandíbula.
A intensidade e a forma como esses sintomas aparecem podem variar bastante de uma pessoa para outra.
E existe um detalhe importante:
um sintoma físico não deve ser automaticamente atribuído à ansiedade.
Sintomas novos, intensos, persistentes ou preocupantes precisam ser avaliados por profissionais de saúde para que outras possíveis causas sejam investigadas.
Cuidar da saúde mental também significa cuidar do corpo.
Quando o corpo começa a carregar o que a mente tenta suportar
Imagine alguém que passa semanas enfrentando uma rotina intensa.
Prazos.
Problemas familiares.
Preocupações financeiras.
Conflitos.
Cobranças.
Pouco sono.
Pouco descanso.
A pessoa continua funcionando.
Vai ao trabalho.
Resolve problemas.
Cuida das responsabilidades.
Diz que está tudo bem.
Mas começa a perceber que está sempre contraindo a mandíbula.
Os ombros permanecem elevados.
O pescoço dói.
O sono não é reparador.
O corpo parece nunca desligar.
Talvez não seja possível apontar para um único acontecimento e dizer:
“Foi isso que causou tudo.”
A experiência pode ser mais complexa.
O corpo pode estar respondendo ao acúmulo.
Ao ritmo.
À falta de descanso.
À tensão emocional.
À maneira como aquela pessoa vem lidando com a própria vida.
O bruxismo e a tensão que não encontra espaço para sair
A mandíbula é uma região especialmente interessante quando falamos de tensão.
Algumas pessoas apertam ou rangem os dentes durante o sono.
Outras percebem que passam grande parte do dia mantendo os dentes pressionados ou a mandíbula contraída.
O bruxismo possui diferentes possíveis causas e precisa ser avaliado por profissionais especializados, especialmente dentistas e médicos quando indicado.
Mas, em algumas pessoas, períodos de maior estresse e ansiedade podem estar associados ao aumento da tensão mandibular.
É como se o corpo permanecesse contraído mesmo quando a pessoa acredita estar descansando.
Por isso, quando o assunto é ansiedade, vale olhar também para aquilo que acontece enquanto estamos dormindo, trabalhando, dirigindo ou simplesmente assistindo televisão.
Como está o seu corpo nesses momentos?
O corpo pode perceber antes da consciência
Na Psicologia Analítica, existe uma compreensão importante sobre a relação entre aquilo que está consciente e aquilo que permanece fora da consciência.
Nem tudo que vivenciamos chega imediatamente ao pensamento.
Às vezes, percebemos primeiro uma sensação.
Uma inquietação.
Uma tensão.
Uma mudança no sono.
Um desconforto.
E só depois conseguimos compreender o que estava acontecendo emocionalmente.
Isso não significa que o corpo esteja literalmente “falando” uma mensagem específica que precisamos decifrar.
É mais cuidadoso pensar que as experiências corporais podem participar da maneira como nossa vida psíquica se manifesta e pode ser percebida.
Por isso, aprender a observar o corpo pode ampliar nosso conhecimento sobre nós mesmos.
Escutar o corpo não significa interpretar tudo
Existe também um cuidado importante.
Quando começamos a prestar mais atenção ao corpo, podemos cair em outro ciclo de ansiedade:
“Meu coração acelerou. Será que é alguma coisa grave?”
“Minha cabeça doeu. Será que tenho algum problema?”
“Estou respirando diferente. Será que vou passar mal?”
A preocupação com os sintomas pode aumentar a vigilância corporal.
E quanto mais observamos procurando sinais de perigo, mais sensações percebemos.
Isso pode alimentar um ciclo:
sensação física → medo → maior atenção ao corpo → mais percepção das sensações → mais medo.
Por isso, o objetivo não é vigiar o corpo o tempo inteiro.
É desenvolver uma relação mais tranquila e consciente com ele.
Talvez seu corpo esteja pedindo uma pausa
Nem sempre precisamos esperar que o corpo chegue ao limite para perceber que alguma coisa precisa mudar.
Às vezes, a pergunta pode ser simples:
Como tenho tratado meu corpo ultimamente?
Tenho dormido?
Tenho descansado?
Tenho me alimentado adequadamente?
Tenho movimentado meu corpo?
Tenho momentos em que realmente não preciso produzir?
Tenho espaço para conversar sobre aquilo que estou sentindo?
Tenho conseguido dizer não?
Tenho carregado responsabilidades que poderiam ser compartilhadas?
Essas perguntas não substituem uma avaliação profissional quando ela é necessária.
Mas podem ajudar a perceber algo importante:
o cuidado com a saúde mental também passa pela maneira como habitamos o próprio corpo.
O corpo não precisa ser seu inimigo
Quando aparecem sintomas físicos associados à ansiedade, é comum sentir medo do próprio corpo.
A pessoa começa a observar cada batimento cardíaco.
Cada alteração na respiração.
Cada dor.
Cada sensação.
E pode começar a interpretar o próprio corpo como uma ameaça.
Mas o corpo também é um sistema que tenta proteger você.
Ele reage.
Adapta-se.
Avisa.
Recupera-se.
E precisa de cuidado.
Em vez de perguntar apenas:
“Como faço para fazer esse sintoma desaparecer?”
Talvez seja possível começar a perguntar:
“O que estava acontecendo comigo quando percebi esse sintoma?”
“Como estava minha rotina?”
“O que eu vinha vivendo emocionalmente?”
“Eu estava descansando ou apenas funcionando?”
Essas perguntas podem ajudar a construir uma compreensão mais ampla.
Psicoterapia: quando ouvir o corpo também significa olhar para a própria história
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a perceber padrões que muitas vezes passam despercebidos.
O que acontece antes da ansiedade?
Quais situações costumam aumentar a tensão?
Quais emoções são mais difíceis de reconhecer?
Você consegue expressar raiva, tristeza, medo ou frustração?
Ou costuma continuar funcionando como se nada estivesse acontecendo?
Como você aprendeu a lidar com vulnerabilidade?
Essas perguntas não procuram transformar todo sintoma físico em um problema psicológico.
Elas ajudam a ampliar o olhar.
Porque, quando cuidamos da saúde mental, não estamos cuidando apenas dos pensamentos.
Estamos cuidando da pessoa inteira.
Talvez descansar seja mais do que parar
Você pode passar algumas horas sem trabalhar e continuar internamente em estado de alerta.
Pode estar sentado no sofá e ainda assim sentir que precisa resolver alguma coisa.
Pode dormir e acordar cansado.
Pode sair de férias e continuar pensando nos problemas.
Descansar não é apenas interromper uma atividade.
Para muitas pessoas, é também aprender a sair, pouco a pouco, de um estado permanente de vigilância.
E isso pode levar tempo.
Pode exigir mudanças na rotina.
Pode exigir limites.
Pode exigir ajuda.
Pode exigir aprender a reconhecer que você não precisa estar preparado para tudo o tempo inteiro.
Para refletir
Hoje, em algum momento tranquilo, experimente perceber seu corpo sem procurar imediatamente uma explicação.
Como está sua mandíbula?
Seus ombros estão relaxados?
Como está sua respiração?
Você está prendendo alguma parte do corpo?
Existe alguma região constantemente tensa?
E, principalmente:
O que estava acontecendo na sua vida quando você começou a perceber isso?
Não é necessário encontrar uma resposta imediatamente.
Às vezes, perceber já é um primeiro passo.
Porque aquilo que aprendemos a ignorar também pode precisar de espaço para ser compreendido.
Cuidar da mente também é aprender a escutar o corpo.
Jean Carlo Petenlinkar de Osti
Psicólogo — CRP 06/167860
Psicologia Analítica / Junguiana
JC Clínica de Psicologia