Quando tentar controlar tudo aumenta a ansiedade
Sobre a necessidade de ter certeza de que tudo ficará bem
Você costuma pensar que, se conseguir planejar tudo cuidadosamente, poderá evitar que alguma coisa dê errado?
Talvez você revise várias vezes uma mensagem antes de enviá-la.
Talvez precise saber exatamente como será uma situação antes de vivê-la.
Talvez tenha dificuldade de delegar tarefas porque sente que, se não fizer pessoalmente, algo sairá errado.
Ou talvez passe horas imaginando diferentes possibilidades para tentar se preparar para aquilo que ainda nem aconteceu.
No fundo, pode existir uma tentativa silenciosa de garantir:
“Se eu conseguir controlar tudo, talvez nada de ruim aconteça.”
O problema é que a vida não funciona dessa maneira.
E quanto mais tentamos controlar aquilo que não está sob nosso controle, maior pode se tornar a ansiedade.
O controle pode começar como proteção
A necessidade de controle nem sempre nasce de um desejo de dominar tudo.
Muitas vezes, ela nasce do medo.
Medo de sofrer.
Medo de errar.
Medo de decepcionar alguém.
Medo de ser abandonado.
Medo de perder uma oportunidade.
Medo de não conseguir lidar com aquilo que vier.
Quando determinadas experiências nos fazem sentir vulneráveis, controlar pode parecer uma maneira de recuperar segurança.
Planejar pode trazer tranquilidade.
Organizar pode diminuir a sensação de caos.
Antecipar problemas pode dar a impressão de que estamos preparados.
Até certo ponto, isso é saudável.
O problema aparece quando o controle deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma necessidade.
Quando o planejamento se transforma em vigilância
Existe uma diferença importante entre estar preparado e precisar estar preparado para absolutamente tudo.
Planejar uma viagem é diferente de imaginar todos os problemas que podem acontecer durante ela.
Organizar uma apresentação é diferente de ensaiar mentalmente todas as possíveis perguntas que alguém poderá fazer.
Conversar sobre uma dificuldade em um relacionamento é diferente de tentar prever todas as reações da outra pessoa.
Quando a necessidade de controle aumenta, a pessoa pode permanecer constantemente em estado de vigilância.
Ela observa.
Analisa.
Revisa.
Confere.
Antecipadamente procura sinais de que alguma coisa pode dar errado.
E, mesmo quando tudo está bem, a mente pergunta:
“Mas e se acontecer alguma coisa?”
Assim, o presente deixa de ser vivido como um espaço de experiência e passa a ser tratado como uma espécie de sala de espera para o próximo problema.
A ilusão de que pensar mais significa controlar mais
Um dos aspectos mais difíceis da ansiedade é que ela pode convencer a pessoa de que pensar mais é sempre uma solução.
“Se eu analisar melhor, vou encontrar uma resposta.”
“Se eu pensar em todas as possibilidades, vou conseguir evitar o problema.”
“Se eu revisar mais uma vez, vou ter certeza.”
Mas existe um ponto em que pensar deixa de produzir clareza e começa a produzir exaustão.
A mente continua procurando uma certeza que talvez não exista.
E quanto mais procura, mais percebe novas possibilidades de risco.
É como tentar fechar todas as portas contra uma tempestade que pode nunca chegar.
Você fecha uma.
Depois percebe outra.
Fecha outra.
E continua verificando.
Até que já não consegue descansar.
A vida contém uma parte que não podemos controlar
Essa talvez seja uma das experiências mais difíceis de aceitar.
Você pode escolher como agir, mas não pode controlar completamente como as outras pessoas irão reagir.
Pode cuidar da sua saúde, mas não controlar todas as circunstâncias do futuro.
Pode se preparar para uma situação, mas não garantir o resultado.
Pode oferecer amor, mas não determinar o que outra pessoa sentirá.
Pode fazer o seu melhor, mas não eliminar completamente a possibilidade de fracasso.
Existe uma parcela da vida que permanece imprevisível.
E reconhecer isso não significa ser passivo.
Significa reconhecer os limites do próprio controle.
O que a Psicologia Analítica pode nos ajudar a compreender
Na perspectiva da Psicologia Analítica, existe uma diferença importante entre aquilo que conseguimos conscientemente organizar e a dimensão da vida psíquica que não controlamos completamente.
Nem tudo aquilo que sentimos, desejamos, tememos ou imaginamos está sob o domínio da nossa consciência.
E talvez seja justamente aí que a necessidade excessiva de controle encontre uma de suas dificuldades.
Quando tentamos manter tudo sob controle, podemos acabar tentando controlar também aquilo que pertence à nossa própria experiência interna.
Queremos controlar sentimentos.
Controlar pensamentos.
Controlar desejos.
Controlar a imagem que transmitimos.
Controlar a maneira como somos percebidos.
Controlar o futuro.
Mas aquilo que não conseguimos reconhecer ou aceitar pode continuar aparecendo de outras maneiras.
A ansiedade, nesse sentido, pode ser compreendida não apenas como algo que precisa ser eliminado, mas também como uma experiência que merece ser escutada e compreendida.
O medo de perder o controle pode esconder o medo de entrar em contato com a própria vulnerabilidade
Talvez uma das perguntas mais importantes seja:
“O que eu acredito que aconteceria se eu não conseguisse controlar essa situação?”
A resposta pode revelar muito.
“Eu poderia ser rejeitado.”
“Eu poderia fracassar.”
“Eu poderia decepcionar alguém.”
“Eu poderia descobrir que não sou tão bom quanto imaginava.”
“Eu poderia precisar de ajuda.”
“Eu poderia não saber o que fazer.”
Às vezes, por trás da necessidade de controlar tudo existe uma dificuldade muito humana:
aceitar que somos vulneráveis.
Não sabemos tudo.
Não conseguimos prever tudo.
Precisamos de outras pessoas.
Podemos errar.
Podemos mudar de ideia.
Podemos perder.
Podemos recomeçar.
E nada disso diminui nosso valor.
Abrir mão do controle não significa perder o rumo
É importante fazer uma distinção.
Aprender a lidar com a ansiedade não significa abandonar planejamento, responsabilidade ou organização.
Significa aprender a diferenciar:
aquilo que depende de mim
daquilo que
não depende de mim.
Você pode escolher suas atitudes.
Pode estabelecer limites.
Pode se preparar.
Pode pedir ajuda.
Pode cuidar de si.
Pode tomar decisões.
Mas não precisa assumir a responsabilidade por todas as variáveis da vida.
Às vezes, maturidade emocional não está em conseguir controlar mais.
Está em conseguir reconhecer o que não precisa ser controlado.
E se você não precisasse ter certeza para seguir em frente?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis para quem vive em estado constante de ansiedade.
“E se eu não tiver certeza de que vai dar certo?”
A resposta pode ser:
Você ainda pode seguir.
Pode escolher.
Pode experimentar.
Pode corrigir o caminho.
Pode pedir ajuda.
Pode aprender com o que acontecer.
A vida não exige que tenhamos todas as respostas antes de começarmos a caminhar.
Talvez seja justamente a necessidade de certeza absoluta que esteja impedindo alguns movimentos importantes.
Na psicoterapia, podemos aprender a construir uma relação diferente com a incerteza
A psicoterapia não oferece garantias sobre o futuro.
E talvez esse seja justamente um dos seus valores.
Ela pode oferecer um espaço para compreender por que determinadas situações despertam tanto medo, quais padrões de controle foram construídos ao longo da história de cada pessoa e o que existe por trás da necessidade de estar sempre preparado.
A questão não é simplesmente aprender a “controlar menos”.
É compreender por que você precisa controlar tanto.
Quando essa compreensão começa a acontecer, pode surgir uma possibilidade diferente:
não a de controlar tudo,
mas a de confiar um pouco mais na própria capacidade de enfrentar aquilo que vier.
Porque talvez segurança não seja a certeza de que nada dará errado.
Talvez segurança seja descobrir que, mesmo quando algo sair diferente do planejado, você poderá encontrar uma maneira de lidar com isso.
Para refletir
Antes de tentar resolver o próximo problema que ainda nem aconteceu, pergunte a si mesmo:
Isso realmente está acontecendo agora ou estou tentando me proteger de uma possibilidade?
O que está sob meu controle neste momento?
O que estou tentando controlar que pertence a outra pessoa ou ao futuro?
O que eu temo que aconteça se eu simplesmente não tiver uma resposta agora?
Às vezes, diminuir a ansiedade começa não quando encontramos todas as respostas, mas quando percebemos que algumas perguntas podem permanecer abertas por algum tempo.
E podemos continuar vivendo mesmo assim.
Jean Carlo Petenlinkar de Osti
Psicólogo — CRP 06/167860
Psicologia Analítica / Junguiana
JC Clínica de Psicologia